quarta-feira, 12 de julho de 2017

Valor Moral

(...) Ser benfazejo, quando se pode, é um dever; contudo há certas almas tão propensas à simpatia que, sem motivo de vaidade ou de interesse, experimentam viva satisfação em difundir em volta de si a alegria e se comprazem em ver os outros felizes, na medida em que isso é obra delas. Mas afirmo que, em tal caso, semelhante ação, por conforme ao dever e por amável que seja, não possui valor moral verdadeiro; é simplesmente concomitante com outras inclinações, por exemplo, com o amor da glória, o qual, quando tem em vista um objeto em harmonia com o interesse público e com o dever, com o que, por conseguinte, é honroso, merece louvor e estímulo, mas não merece respeito; pois à máxima da ação falta o valor moral, que só está presente quando as ações são praticadas, não por inclinação, por dever. Imaginemos pois a alma deste filantropo anuviada por um daqueles desgostos pessoais que sufocam toda simpatia para com a sorte alheia; que ele tenha ainda a possibilidade de minorar os males de outros desgraçados, sem que todavia se sinta comovido com os sofrimentos deles, por se encontrar demasiado absorvido pelos seus próprios; e que, nestas condições, sem ser induzido por nenhuma inclinação, se arranca a essa extrema insensibilidade e age, não por inclinação, mas só por dever: só nesse caso seu ato possui verdadeiro valor moral. (...)

Excerto de A metafísica dos costumes 
Immanuel Kant 


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas o homem, por ter apenas uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese por meio de experimentos, por isso não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a seu sentimento.

Excerto de A insustentável leveza do ser 
Milan Kundera

Dramatização

(...)
O problema de dramatizar o próprio trabalho implica mais do que simplesmente tornar visíveis os custos invisíveis. O trabalho que deve ser feito por aqueles que ocupam certos status é, com frequência, tão malplanejado como expressão de um significado desejado, que se a pessoa incumbida dele quisesse dramatizar a natureza de seu papel deveria desviar considerável quantidade de energia para esse fim. E esta atividade canalizada para a comunicação vai requerer muitas vezes atributos diferentes dos que estão sendo dramatizados. Assim, para mobiliar uma casa de modo tal que exprima dignidade simples e tranquila, o dono da casa pode ter de correr a leilões, regatear com antiquários e teimosamente esmiuçar todas as lojas locais para encontrar o papel de parede e o material para as cortinas adequadas. Para fazer uma palestra no rádio que  pareça genuinamente natural, espontânea e tranquila, o locutor pode ter de planejar seu  "texto" com esmerado cuidado, ensaiando frase por frase, a fim de imitar o conteúdo, a linguagem, o ritmo e a fluência do falar cotidiano. Da mesma forma, uma modelo do Vogue, por seu traje, postura e expressão facial, é capaz de retratar de maneira expressiva uma compreensão culta do livro que tem nas mãos; mas as pessoas que se embaraçam em se expressar com tanta propriedade terão muito pouco tempo livre para ler. Como disse Sartre: "O aluno atento que deseja ser atento, olhos fixos no professor, ouvidos bem abertos, consome-se tanto em representar o papel de atento que termina por não ouvir mais nada". E assim os indivíduos se encontram muitas vezes em face do dilema expressão versus ação. Aqueles que tem tempo e talento para desempenhar bem uma tarefa não podem, por este motivo, ter tempo para mostrar que estão representando bem. É possível dizer que algumas organizações resolvem este dilema delegando oficialmente a função dramática a um especialista, que gastará o tempo expressando o significado da tarefa e não perderá tempo em desempenha-la efetivamente.

Excerto de A representação do eu na vida cotidiana
Erving Goffman
p.  44 
Editora Vozes 
20a Edição.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Sobre o estado mínimo.

(...)
   Como rezaria o folclore da nova geração de “classes esclarecidas” geradas no admirável novo mundo monetarista do capital nômade, abrir represas e dinamitar todos os diques mantidos pelo Estado fará do mundo um lugar livre para todos. Segundo essas crenças folclóricas, a liberdade (de comércio e a mobilidade de capital, antes e acima de tudo) é a estufa na qual a riqueza cresceria mais rápido do que nunca; e uma vez multiplicada a riqueza, haverá mais para todos.

    Os pobres do mundo – quer velhos ou novos, hereditários ou fruto da computação – dificilmente reconheceriam sua angustiosa situação nessa ficção folclórica. (…)
Globalização – As consequências Humanas - Zygmun Bauman (p.79 ed. Zahar)

sábado, 3 de junho de 2017

As palavras não são nada.

As palavras não são nada. Deviam ser eliminadas. Nada do que possamos dizer alude ao que no mundo é. Com trinta e duas letras num alfabeto não criamos mais do que objetos equivalentes entre si, todos irmanados na sua ilusão. As letras da palavra cavalo não galopam, nem as do fogo bruxuleiam. E que importa como se diz cavalo ou fogo se não se autonomizam do abecedário. Nenhuma pedra se entende por caracteres. As pedras são entidades absolutamente autónomas às expressões. As pedras recusam a linguagem. Para a linguagem as pedras reclamam o direito de não existir. Se as nomeamos não estamos senão a enganarmos-nos voluntariamente. Às pedras nunca enganaremos. Elas sabem que existem por outros motivos e talvez suspeitem que o nosso desejo de falar seja só um modo menos desenvolvido de encarar a evidência de existir.

Excerto de  A desumanização
Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Ivan Ilitch via que estava morrendo, e o desespero não o largava mais. Sabia, no fundo da alma, que estava morrendo, mas não só não se acostumara a isso, como simplesmente não o compreendia, não podia de modo algum compreendê-lo.
O exemplo do silogismo que ele aprendera na Lógica de Kiesewetter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele. Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e neste caso era absolutamente justo; mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais; ele era Vânia¹, com mamãe, com papai, com Mítia e Volódia², com os brinquedos, o cocheiro, a babá, depois com Kátienka³, com todas as alegrias, tristezas e entusiasmos da infância, da juventude, da mocidade. Existiu porventura para Caio aquele cheiro da pequena bola de couro listada, de que Vânia gostara tanto?! Porventura Caio beijava daquela maneira a mão da mãe, acaso farfalhou para ele, daquela maneira, a seda das dobras do vestido da mãe? Fizera um dia tanto estardalhaço na Faculdade de Direito, por causa de uns pirojski?⁴ Estivera Caio assim apaixonado? E era capaz de conduzir assim um tribunal?
E Caio é realmente mortal, e está certo que ele morra, mas quanto a mim, Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e idéias, aí o caso é bem outro. E não pode ser que eu tenha de morrer. Seria demasiadamente terrível.


Excerto de A morte de Ivan Ilitch Lev Tolstói
Tradução de Boris Schnaiderman

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Livro

Costumo chamá-lo simplesmente o Livro, sem nenhum adjetivo ou epíteto, e nessa sobriedade e limitação há um suspiro importante, uma capitulação silenciosa diante da vastidão do transcendente, porque nenhuma palavra, nenhuma alusão, poderia reluzir, emitir o perfume, escorrer no frêmito de susto, no pressentimento do que não tem nome, mas cujo primeiro sabor na ponta da língua ultrapassa nossa capacidade de deslumbramento. Pois de que adiantaria o páthos dos adjetivos e a ênfase dos epítetos perante essa coisa imensurável, perante esse incalculável esplendor? Porém o leitor, o leitor verdadeiro com o qual este romance conta, o entenderá mesmo assim, quando eu olhá-lo bem no fundo dos olhos, iluminando-o com esse brilho. Nesse olhar breve e penetrante, nesse rápido aperto de mão, ele o captará, retomará, reconhecerá - e fechará os olhos no êxtase dessa recepção profunda. Pois será que debaixo da mesa que nos separa não nos damos todos secretamente as mãos?

Excerto de O Livro contido em Sanatório Sob o Signo da Clepsidra.
Bruno Schulz (1892-1942)
Tradução de  Henryk Siewierski


Depois de ler isso, como não ler o restante do livro?

MERDA

"O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que escrevi minha primeira palavra feia no muro alto do colégio — exatamente essa bela palavra MERDA que agora me fita do outro lado da rua, como um desafio. MERDA é tudo que não seja a morte, que talvez também o seja, e disso sempre tiveram consciência os homens menos mentecaptos em seus momentos de maior lucidez, e que são poucos. Merda é a própria vida, mero eufemismo para uso dos salões elegantes e dos tratados diplomáticos, que também são uma merda como tudo mais, como sempre o foram e o serão até o fim dos tempos. Proponho mesmo que, em lugar dos nomes dos países, se diga simplesmente: Merda n.° 1, Merda n.° 2, e assim por diante, chamando-se aos Estados Unidos a capital de todas as merdas, como de fato eles o são."

Excerto de A lua vem da Ásia
(1956)
Walter Campos de Carvalho

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Sobre os Estados Unidos

(...) Obviamente, esses problemas são menos preocupantes em países poderosos e estáveis. Afinal, não faz muita diferença quem é o presidente dos Estados Unidos: desde 1865, sete presidentes foram assassinados ou forçados a se retirar antes do fim do mandato, e foram substituídos por indivíduos que não haviam sido escolhidos para governar o país. No entanto, a história dos Estados Unidos não sofreu alterações significativas por causa desses traumas. Nos Estados Unidos, os trilhos nos quais corre o trem do poder são tão estáveis que, seja quem for alçado ao posto de condutor, não há risco de um descarrilamento. Já na União Soviética, a liderança podia fazer diferença, e certamente o fez. 
(...)

Excerto de O novo século: entrevista a Antonio Polito
Eric J. Hobsbawn

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Erupção dental e febre.


Existe ou não uma relação entre erupção dental e febre? As pesquisas dão resultados contrastantes. Pode aparecer febre, não pode aparecer febre (a origem seria uma infecção devido à maior presença da mão na boca). Algumas pesquisam afirmam ainda que pode aparecer um estado subfebril (T < 37.5o C). Alguns pesquisadores decidiram investigar no que acreditam os pais, dentistas e pediatras.

45% dos pediatras acreditam que sim, pode haver febre.

76% dos dentistas pediátricos também acreditam que sim.
50% dos pais acreditam que sim.


quarta-feira, 6 de julho de 2016

(...) E depois, na Rússia, como vou me apresentar ao olhos de meu estaroste, do comerciante Koguélnikov, a quem vendo trigo, aos olhos de minha tia moscovita e de todos aqueles senhores , sem nenhuma condecoração depois de anos no Cáucaso? É verdade que não quero ter relação com esses senhores e que, é bem possível, eles também estejam muito pouco interessados em mim; mas o ser humano é feito de tal modo que eu não quero ter relação com eles, mas mesmo assim, por causa deles, destruo meus melhores anos, toda a felicidade de minha vida e vou arruinar todo o meu futuro.

Excerto de A Derrubada da Floresta

Liev Tolstói
Traduzido por Rubens Figueiredo
(...) O Crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és.
Amo-te muito, filho.
(...)
Excerto de O filho de mil homens.
Valter Hugo Mãe.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

sábado, 26 de dezembro de 2015

Serei Crente?

(...) Serei  Crente? Resolvi a questão do céu através de uma evidência: entre todos aqueles que se entretêm a falar sobre a minha condição - grupos de anjos, de deuses, de diabos ou de livros -, soube, muito jovem, que eu era o único a conhecer a dor, a obrigação da morte, do trabalho e da doença. Sou o único a pagar a as facturas de eletricidade e a ser comido pelos vermes no fim. Portanto, rua! Para começar ,detesto as religiões e  a submissão. (...)

Kamel Daoud in Meursault, contra-investigação.
Pag 66, 44ed. Teodolito.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O negador de milagres

Chu Fu Tze, negador de milagres, tinha morrido; seu genro o velava. Ao amanhecer, o caixão se elevou e ficou suspenso no ar, a dois palmos do chão. O piedoso genro ficou horrorizado.
-Oh, venerado sogro - suplicou -, não destrua minha fé de que os milagres são impossíveis.
O caixão, então, desceu lentamente, e o genro recuperou a fé.

Citado em Confucianism and its Rivals, Lecture VIII, 1915.


Herber A. Giles