sábado, 13 de setembro de 2014

Dr. Camilo de Holanda não era fácil. Nos conta Ariano Suassuana.

Por volta de 1918.
Quando ele estava no governo, chegou uma pessoa no palácio e disse:
-Dr. Camilo, eu vim dizer ao senhor que Antônio Pessoa morreu.
Ele respondeu:
-Vão ser três dias de festa no inferno.


A notícia correu. A Paraíba ficou em polvorosa. O arcebispo da Paraíba, dom Arnaldo, foi no palácio. Chegou lá, disse:
-Dr. Camilo, eu vim aqui falar com o senhor porque tá correndo uma história horrorosa. Estão dizendo que quando comunicaram ao senhor a morte de Antônio Pessoa, o senhor disse que ia haver três dias de festa no inferno. Estou desmentindo em todo canto, porque uma historia dessas não é possível que seja verdade. Mas eu quero desmentir com o aval do senhor.
-Não, Dom Arnaldo, pode desmentir. Eu não pronunciei um frase absurda dessas. Eu não pronunciei uma frase absurdas dessas e eu vou lhe dizer o motivo. Para a alma de Antônio Pessoa ir pro inferno era preciso que ele tivesse alma e aquele cachorro não tinha alma. Em segundo lugar, o diabo nunca me fez mal, eu não vou desejar a ele a companhia de Antônio Pessoa pro resto da vida.



Por volta de 1930.
Dr. Camilo, já velho, vinha andando na rua nova, e foi avistado por  Fernando Nóbrega. Este aproximou-se e disse:
-Dr. Camilo, eu vim lhe dá uma notícia. Morreu Dona Mariquinha, a viúva de Antonio Pessoa.
Dr. Camilo disse:
-Que dia triste, Fernando. Que dia de Luto. Um dia Triste.
"Bom, o homem amansou  com a idade" pensou Fernando.
Continou, Dr. Camilo:
-Dia triste. Dia terrível.  Que dia de luto no instituto Butantã.  Então morreu aquela serpente velha, né?



Francisco Camilo de Holanda (18621946) foi um político brasileiro.                         
Foi governador do estado da Paraíba, de 22 de outubro de 1916 a 22 de outubro de 1920.