segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Livro

Costumo chamá-lo simplesmente o Livro, sem nenhum adjetivo ou epíteto, e nessa sobriedade e limitação há um suspiro importante, uma capitulação silenciosa diante da vastidão do transcendente, porque nenhuma palavra, nenhuma alusão, poderia reluzir, emitir o perfume, escorrer no frêmito de susto, no pressentimento do que não tem nome, mas cujo primeiro sabor na ponta da língua ultrapassa nossa capacidade de deslumbramento. Pois de que adiantaria o páthos dos adjetivos e a ênfase dos epítetos perante essa coisa imensurável, perante esse incalculável esplendor? Porém o leitor, o leitor verdadeiro com o qual este romance conta, o entenderá mesmo assim, quando eu olhá-lo bem no fundo dos olhos, iluminando-o com esse brilho. Nesse olhar breve e penetrante, nesse rápido aperto de mão, ele o captará, retomará, reconhecerá - e fechará os olhos no êxtase dessa recepção profunda. Pois será que debaixo da mesa que nos separa não nos damos todos secretamente as mãos?

Excerto de O Livro contido em Sanatório Sob o Signo da Clepsidra.
Bruno Schulz (1892-1942)
Tradução de  Henryk Siewierski


Depois de ler isso, como não ler o restante do livro?

MERDA

"O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que escrevi minha primeira palavra feia no muro alto do colégio — exatamente essa bela palavra MERDA que agora me fita do outro lado da rua, como um desafio. MERDA é tudo que não seja a morte, que talvez também o seja, e disso sempre tiveram consciência os homens menos mentecaptos em seus momentos de maior lucidez, e que são poucos. Merda é a própria vida, mero eufemismo para uso dos salões elegantes e dos tratados diplomáticos, que também são uma merda como tudo mais, como sempre o foram e o serão até o fim dos tempos. Proponho mesmo que, em lugar dos nomes dos países, se diga simplesmente: Merda n.° 1, Merda n.° 2, e assim por diante, chamando-se aos Estados Unidos a capital de todas as merdas, como de fato eles o são."

Excerto de A lua vem da Ásia
(1956)
Walter Campos de Carvalho

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Sobre os Estados Unidos

(...) Obviamente, esses problemas são menos preocupantes em países poderosos e estáveis. Afinal, não faz muita diferença quem é o presidente dos Estados Unidos: desde 1865, sete presidentes foram assassinados ou forçados a se retirar antes do fim do mandato, e foram substituídos por indivíduos que não haviam sido escolhidos para governar o país. No entanto, a história dos Estados Unidos não sofreu alterações significativas por causa desses traumas. Nos Estados Unidos, os trilhos nos quais corre o trem do poder são tão estáveis que, seja quem for alçado ao posto de condutor, não há risco de um descarrilamento. Já na União Soviética, a liderança podia fazer diferença, e certamente o fez. 
(...)

Excerto de O novo século: entrevista a Antonio Polito
Eric J. Hobsbawn