segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Livro

Costumo chamá-lo simplesmente o Livro, sem nenhum adjetivo ou epíteto, e nessa sobriedade e limitação há um suspiro importante, uma capitulação silenciosa diante da vastidão do transcendente, porque nenhuma palavra, nenhuma alusão, poderia reluzir, emitir o perfume, escorrer no frêmito de susto, no pressentimento do que não tem nome, mas cujo primeiro sabor na ponta da língua ultrapassa nossa capacidade de deslumbramento. Pois de que adiantaria o páthos dos adjetivos e a ênfase dos epítetos perante essa coisa imensurável, perante esse incalculável esplendor? Porém o leitor, o leitor verdadeiro com o qual este romance conta, o entenderá mesmo assim, quando eu olhá-lo bem no fundo dos olhos, iluminando-o com esse brilho. Nesse olhar breve e penetrante, nesse rápido aperto de mão, ele o captará, retomará, reconhecerá - e fechará os olhos no êxtase dessa recepção profunda. Pois será que debaixo da mesa que nos separa não nos damos todos secretamente as mãos?

Excerto de O Livro contido em Sanatório Sob o Signo da Clepsidra.
Bruno Schulz (1892-1942)
Tradução de  Henryk Siewierski


Depois de ler isso, como não ler o restante do livro?

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