segunda-feira, 3 de julho de 2017

Dramatização

(...)
O problema de dramatizar o próprio trabalho implica mais do que simplesmente tornar visíveis os custos invisíveis. O trabalho que deve ser feito por aqueles que ocupam certos status é, com frequência, tão malplanejado como expressão de um significado desejado, que se a pessoa incumbida dele quisesse dramatizar a natureza de seu papel deveria desviar considerável quantidade de energia para esse fim. E esta atividade canalizada para a comunicação vai requerer muitas vezes atributos diferentes dos que estão sendo dramatizados. Assim, para mobiliar uma casa de modo tal que exprima dignidade simples e tranquila, o dono da casa pode ter de correr a leilões, regatear com antiquários e teimosamente esmiuçar todas as lojas locais para encontrar o papel de parede e o material para as cortinas adequadas. Para fazer uma palestra no rádio que  pareça genuinamente natural, espontânea e tranquila, o locutor pode ter de planejar seu  "texto" com esmerado cuidado, ensaiando frase por frase, a fim de imitar o conteúdo, a linguagem, o ritmo e a fluência do falar cotidiano. Da mesma forma, uma modelo do Vogue, por seu traje, postura e expressão facial, é capaz de retratar de maneira expressiva uma compreensão culta do livro que tem nas mãos; mas as pessoas que se embaraçam em se expressar com tanta propriedade terão muito pouco tempo livre para ler. Como disse Sartre: "O aluno atento que deseja ser atento, olhos fixos no professor, ouvidos bem abertos, consome-se tanto em representar o papel de atento que termina por não ouvir mais nada". E assim os indivíduos se encontram muitas vezes em face do dilema expressão versus ação. Aqueles que tem tempo e talento para desempenhar bem uma tarefa não podem, por este motivo, ter tempo para mostrar que estão representando bem. É possível dizer que algumas organizações resolvem este dilema delegando oficialmente a função dramática a um especialista, que gastará o tempo expressando o significado da tarefa e não perderá tempo em desempenha-la efetivamente.

Excerto de A representação do eu na vida cotidiana
Erving Goffman
p.  44 
Editora Vozes 
20a Edição.

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